Uma Carta a Quem Eu Fui.


Preciso dizer que essa não era a postagem programada para hoje, mas enquanto eu editava algumas  postagens por aqui, recebi uma foto minha de exatamente um ano atrás. Fui tomada por memórias, lembranças não tão boas e algumas parcialmente felizes, e me teletransportei, com certo pesar, para o meu eu do passado. 

Com as suaves melodias da música Drew Barrymore da Sza como pano de fundo, me deixando ainda mais nostálgica e um tanto melancólica, me vi analisando minuciosamente a Hadassa que um dia fui.

Eu sei que não continuamos os mesmo; sei que assim como as estações, nós mudamos, as vezes nem pra melhor, apenas mudamos - somos, em essência, seres mutáveis. Poderia listar facilmente as mudanças que sofri, mas as palavras seriam poucas para narrar os acontecimentos que me fizeram, no presente momento, nesta instância, ser quem eu sou.

Já não tenho mais esse suéter laranja da imagem acima, tirada em 2016. Entre as várias mudanças, tanto geográficas quanto emocionais, pelas quais passei naquele ano, talvez ele tenha se perdido em meio as caixas ou na revisão do que eu usaria ou não, enquanto empacotava as minhas coisas - e eu já não sei dizer se escolhi abrir mão do suéter ou não. Eu também não tenho mais essa mochila que aparece parcialmente na foto; mochilha esta na qual carreguei, por inúmeras vezes, objetos, sonhos e expectativas que hoje a realidade me fez enxergar da outra forma.

Aprendi que amigos, ao contrário dos ditados populares, você os reconhece mesmo quando está bem, uma vez que em momentos de dificuldade, é muito fácil as pessoas mostrarem ''compaixão'' ou "simpatia", principalmente quando você se encontra em uma situação menos favorecida do que a destes e é só desse jeito que eles vão querer te ver. Aprendi que as vezes é necessário deixar seus medos de lado e enfrentá-los, pois quando a vida te dá uma daquelas surras, você precisa aprender a levantar e surpreender a platéia com um golpe excepcional caso queira vencer. Aprendi aproveitar os pequenos momentos como caminhar em um parque; sentar nos bancos das praças, fechar os olhos e sentir o vento batendo no seu rosto, pois a qualquer momento, esses pequenos segundos de calmaria podem mudar drasticamente. Aprendi também que mesmo que você trabalhe arduamente, acorde cedo, cumpra seus horários, no final das contas, pode ser que não valorizem isso, e é aí meus caros, que você aprende a exercitar aquele diálogo com o seu eu interior e mostrá-lo que quem precisa validar suas atitudes e reconhecer seus esforços é justa e unicamente, você mesmo.

Aprendi que a paz de espírito é deitar a cabeça no travesseiro antes de dormir e se sentir bem com suas ações - vale mais do que ter um salário recheado no final do mês, acreditem-me. Compreendi que embora as minhas palavras não alcancem a todos, elas ainda valem a pena. Entendi que minha voz e minha opinião perante as coisas da vida são importantes. Aprendi que posso ter a cor de cabelo que eu quiser. Descobri que as cicatrizes que carrego, sendo elas físicas ou emocionais, com muita harmonia, fazem parte da bagunçada e bela história que é ser quem hoje sou. 

Percebi também que é sim importante cuidar da saúde e do corpo, desde que eu esteja fazendo isso porque é bom para mim e não porque quero tentar me encaixar em um ''padrão'' estabelecido. Aprendi que ser rico e ser educado são coisas bem diferentes; que colegas de trabalho podem ser divertidos, muito companheiros e nada competitivos; que as vezes as pessoas têm tão pouco, que precisam arruinar as chances profissionais de outras. Compreendi que o amor de minha família sempre me dará forças e que esse amor é algo divino; aprendi que posso nunca entender as razões de ter ou não ter conseguido o que desejava e que não há problema nisso; entendi também que não saber o que vai acontecer, as vezes é sim, uma benção. 
Eu aprendi e tenho aprendido a cada dia a aceitar meus defeitos, reconhecer minhas qualidades e tentar levar a vida da forma mais leve possível, mantendo em mente que sempre existirão os dias azuis, embora eu possa ter a impressão de que a vida será sempre cinza. Hoje não vejo problema algum em ser sensível demais ou sentir empatia por pessoas desconhecidas; e mesmo que as correrias e as reviravoltas do dia a dia muitas vezes me deixem confusa, de uma forma engraçada, a vida sempre dará um jeito de fechar cada ciclo por si só. 

Se eu pudesse deixar uma carta para a Hadassa de um ano atrás, eu teria contado a ela que em pouco tempo, iríamos descobrir coisas maravilhosas juntas; teria contado o quanto ela era mais forte do que imaginava. Mas hoje eu já sei. Hoje me permito embarcar nas mutações diárias nas quais a vida me convida e me envolve; permito-me juntar cada pedaço meu, encaixotar e levá-lo para mudanças futuras. E se por um acaso uma parte de mim se perca no caminho, bem... Acontece em todas as mudanças, não é mesmo?! Além do mais, de uma coisa eu tenho certeza: ao perdermos algo, cedo ou tarde, somos recompensados com ganhos muito além de nossas expectativas. 


Genuínas reflexões sobre não agir sempre genuinamente. E estar ok com isso.


Por Erika Gomes, 

Eu estava falando comigo mesma agora há pouco, refletindo sobre a vida enquanto não a encontrava, de fato, ao olhar no fundo do olhos no meu reflexo no espelho. Os tempos não têm sido fáceis. Nunca foram, é verdade. Porém, tudo está absolutamente mais difícil. Sei que as coisas não estão assim só para mim, mas talvez seja bom ser egoísta, de tempos em tempos, e me importar só com a minha dor. Sei disso agora. Isso não quer dizer deslegitimar o sofrimento do outro - qualquer outro negro; pobre; negro e pobre; mulher; mulher negra e pobre, no Brasil. A dor é real, já que a opressão, a corrupção, o racismo e capitalismo também o são. E me importar, em certas ocasiões, só com a minha dor não é também, torna-la maior e por isso, "mais dolorosa". Sofrimento não deve ser hierárquico, e muito menos uma competição. Mas eu refleti sobre um aspecto da minha vida: eu sempre estou querendo carregar toda a dor dos injustiçados no mundo. Eu já havia discutido isso com a minha terapeuta, mas não tinha parado para pensar profundamente sobre isso. Não tinha pensando, verdadeiramente, nessa verdade.
 
Eu tenho o hábito de acumular; querer cuidar e carregar todo o sofrimento que me é permitido. Estou constantemente pensando primeiramente na dor dos outros, principalmente daqueles que eu amo, e no quanto minhas ações e até mesmo expressão das minhas emoções, podem afetar os outros. Não sou abnegada e nem cem por cento altruísta. Estou longe - infinitos quilômetros longe, de ser uma espécie de santa. Aliás, não é isso o que eu aspiro, de maneira nenhuma, muito obrigada. Mas esse é um fato inegável sobre mim que, honestamente, só fui reparar depois que entrei na universidade. 


Sou preta e pobre. É claro que, desde os meus primeiros dias na Universidade Federal do Paraná, percebi que a maioria das mulheres que lá fazem a limpeza, são negras. E ao decorrer do curso, percebi também, que todos os pseudointelectuais que perambulam os corredores do prédio histórico, arrotando Marx e organizando eventos, cheios de cartazes com frases inteligentes para a próxima manifestação, passam todos os dias por essas mesmas mulheres negras, da classe trabalhadora terceirizada que eles visam defender, sem as cumprimentar. Sem nem, ao menos, olha-las nos olhos. Sou uma pessoa quieta, meio introspectiva quando não estou com amigos ou em casa - sou observadora. Vejo tudo isso e me incomodo grandemente com a hipocrisia do ser humano. 


Desde o primeiro dia de aula, eu cumprimentava essas mulheres, por educação e humanidade. Contudo, depois de notar tudo isso, percebi, agora, que ao invés de ser alguém que genuinamente as cumprimenta, passei a ser uma pessoa que se esforça para parecer genuína, enquanto deseja um "bom dia!". Entretanto, essa não sou eu. Não as cumprimento genuinamente. Não posso ser genuína nesse quesito, nunca mais, porque é quase impossível "desver" alguma coisa. Deixar de notar o que venho observado; jogar fora, no abismo, todas as informações que absorvi a partir dessas observações. 


Eis a questão: eu passei, também, a carregar a dor dessas mulheres - dor esta que talvez, conscientemente, elas não julgam possuir. Não. Não é isso. Acho que não estou sendo precisa. Não passei a carregar a dor especificamente dessas fortes mulheres; mas sim, do que elas representam, para o povo negro, e no que essa representação me afeta. Acontece que, por consequência de circunstâncias, eu estou ali, na Universidade, mas não como estatística. Sou estudante, de Psicologia - curso elitista e majoritariamente branco. O que me separa da vida daquelas mulheres; o que apesar de negra, me torna aos olhos da sociedade (visível na reprodução no comportamento dos meus colegas universitários), digna de ser cumprimentada, são unicamente as oportunidades. Oportunidades - cruelmente separadoras de águas. 


É essa realidade que me dói, profundamente. E é este peso que carrego; é esta consciência que impregna, se entrelaça nos meus "bom dia!", do dia a dia. É por este motivo que não posso cumprimentar aquelas mulheres, simples e genuinamente, por cumprimentar. Há um significado por detrás dessas palavras - eu quero dizer que estou ali, por elas. E que sou grata à elas. E que reconheço suas jornadas até ali, apesar de todos os infindos pesares. 


Sei que é excepcionalmente maravilhoso poder sentir o que sinto e reconhecer tudo isso. Contudo, às vezes é simplesmente cansativo, carregar essa consciência - o sentimento de ser responsável por tudo, ou de consertar tudo. É primeiramente impossível realizar tal coisa. Em segundo lugar, ao me importar com quase toda a dor do mundo, eu passo a não enxergar a minha como legitima. E então a diminuo. E a empurro para de baixo do tapete, para junto de toda as outras velhas bagunças e sujeiras dolorosas que não considerei dignas de serem sentidas. Cheguei a conclusão, de que faço comigo mesma, a mesma coisa que os pseudointelectuais do prédio histórico fazem com as mulheres negras que lá fazem a limpeza. Digo que me enxergo; falo que luto por mim mesma, pelo tão aclamado "empoderamento", quando, no dia a dia, passo reto pelas minhas emoções, já que não as considero. 


Como inicialmente disse, não deve existir uma disputa de sofrimento. Minhas dores não são maiores do que outras, e exatamente por isso, não são menos dignas de atenção. 


É mais fácil cuidar do outro do que de si mesmo. 
Resistir; estar tentando ascender, sendo preta e pobre, visando futuramente fazer uma mudança, mesmo que mínima mas positiva para o povo negro, é também reconhecer que minha sensibilidade importa. 

É tão clichê, bem como uma verdade inegável, as variações de frases e poemas sobre não ser possível fazer qualquer mudança, se ela não acontecer primeiramente em nós mesmos. Não vou sair do lugar se continuar ignorando isso. Não posso continuar me ignorando. E nem vou. 

Sobre: Moda, negritude e saúde mental na universidade.


Em meio há relatos e acontecimentos diários, sabemos que nossas dores e batalhas  não são vistas, e por muitas vezes, apenas consideradas como drama exagerado por parte da população negra. Quando denunciamos o racismo, apenas nos rotulam de vitimistas sem saber - e especialmente, sem se importar -, o quanto essa ação nos mata e massacra, de todos os modos possíveis, dia após dia. Nos fazem acreditar desde pequenas, que nascemos com uma ''força'' sobrenatural - diferente das pessoas brancas, os verdadeiros "seres humanos" - e consequentemente, podemos suportar todo o tipo de dor e violências tanto físicas quanto mentais. E de tanto internalizar esses estigmas, nos percebemos, vez ou outra, aceitando a ideia absurda de que devemos simplesmente ignorar, nossas feridas e seguir em frente. 

A saúde mental da mulher negra, ainda é um assunto estrategicamente muitas vezes evitado, pois os resquícios desses quase 400 anos de escravidão ainda perpetuam, os quais nossas ancestrais foram tratadas e vistas como não mais do que um objeto, designado a atividades braçais, atividades domésticas ou sexuais, e sendo o racismo estrutural como é, essas ideologias ainda são reproduzidas pelas sociedades ocidentais, bem como desde menina, recebemos essas informações através dos veículos de comunicação e na socialização - todas essas ideologias resultam, em algum momento de nossas vidas, na negação da nossa humanidade. Quando a nossa saúde mental se alia ao meio acadêmico, é então que as coisas ficam bem bagunçadas, se não insanas. 

Sabemos que a presença do negro na universidade causa desconforto, e faz com que o racismo dê o - infeliz - ar de sua graça, pois ainda somos considerados seres incapazes intelectualmente para estar compartilhando uma sala de aula com eles. 

Mas Hadassa, onde é que a moda entra em toda essa discussão? Bem, os meus relatos em relação a moda, são apenas compartilhamentos de situações vividas e observadas por mim e, por passar tanto tempo sem processar esses acontecimentos e vivências, tenho a necessidade de entrar em temas como esses, já que a realidade que não é só minha está aí, e precisa ser discutida.

Infelizmente, o mundo acadêmico acaba com o nosso sonho utópico de finalmente estar em um lugar onde você poderá se descobrir e viver dos seus sonhos. É neste momento que ficamos de frente com uma realidade completamente diferente da que idealizávamos. Estar dentro de uma graduação em moda foi uma experiência que só agora, fisicamente distante dela, posso analisar de uma forma uma pouco melhor.

Sempre fui uma pessoa que se cobrou demais, principalmente nos estudos: desde muito pequena, sem nenhuma cobrança dos meus pais, eu sentia que precisava tirar notas altas para me sentir parte de algo maior. Contudo, naquela época, eu não entendia que é impossível se sair bem em tudo. E mesmo quando mais tarde, já estando ciente do fato e não gostava de exigir tanto de mim mesma, passei o ensino médio e entrei na faculdade ainda com o sentimento de que precisava sempre me superar, mesmo quando não havia possibilidades para aquilo acontecer. Mas a questão aqui é que, antes eu não era tão consciente a respeito do modo sutil, em que que o racismo atua. Não entendia quando os meus professores e colegas de classe me faziam críticas duras, desnecessárias, mesmo sabendo quando o meu trabalho estava ao menos, no mínimo, tão aceitável quanto o de um coleguinha branco. Não entendia o porquê de ser questionada: " Foi você mesmo que fez esse trabalho?". Pensava que aquilo era sim, culpa minha: ou o erro estava em meu modo de ser, ou em minhas roupas e condição social - mas raramente, eu chamaria aquelas ações pelo o seu verdadeiro nome: racismo. 

Não é fácil ser mulher, negra, e estar dentro de uma sala de aula. A cada dia, são acumuladas informações depreciativas a nosso respeito, e a baixa estima - e o auto ódio - são tão letais que muitas vezes não conseguimos nos desenvolver academicamente e não raramente, interrompemos os estudos. A falta de representatividade; o silenciamento de suas opiniões; o choque de realidades, nos faz acreditarmos que estamos em um lugar ao qual não pertencemos.
Apesar de ter desejado, praticamente durante toda a minha infância e adolescência, cursar Design de moda, quando fiquei de frente com a realidade desse universo, por diversas vezes me senti inapropriada no local; me perguntei, em incontáveis situações, se aquele lugar era pra mim, pois apesar dos meus esforços - e como mulher negra, eu precisei me esforçar mais do que aqueles que haviam recebido uma educação mil vezes melhor do que a minha -, sempre parecia que eu era muito menos do que os outros colegas. 

Os fatores com os quais eu lutava contra eram esmagadores. Tirando o fato de estar em um local competitivo por natureza, eu ainda precisava lidar com a realidade de não ter professores e quase nenhum colega negros (me lembro de dois, e esse número é considerado "muito"); de todas os slides e referências fashion serem totalmente euro-centrados; e a exigência por parte dos docentes de que além de centrar minha vida em suas matérias, eu fosse resiliente.

O mundo acadêmico, faz com que você deseje estar bem longe dele o mais rápido possível. É necessário atentarmos para assuntos como esses, pois, como já está começando a ser discutido na contemporaneidade: faltar aula da faculdade para fazer coisas da faculdade não é normal; ter professores sendo psicologicamente abusivos não é normal; comparar o desempenho de um aluno com outro também não é normal; e continuar propagando de que a moda é um espaço no qual você deve brigar com unhas e dentes, para, talvez, receber um ''tapinha'' nas costas, bem como estarem criando uma sociedade cheia de alunos cansados e mentalmente não saudáveis, não é normal! Mais anormal ainda é que professores reproduzam livremente o seu racismo, e por isso, os poucos alunos negros que têm acesso à universidades, tenham que "desistir".

Não estou aqui para dar respostas. Aliás, eu nem as tenho. A verdade é que não possuo soluções imediatas mas entendo que, precisamos falar mais sobre assuntos como esses; precisamos mostrar para as nossas irmãs e irmãos pretos (e neste texto, falo mais diretamente com as mulheres negras), que não precisamos e nem devemos carregar todo o fardo que nos jogam nas costas. Precisamos sim, aprender a cada dia enxergar que somos tão merecedores do espaço acadêmico quanto qualquer outro; precisamos entender que acima de tudo, somos seres humanos e nossas instabilidades emocionais importam, que nossa dor causada por uma sociedade que de bom grado, ainda insiste em reproduzir o discurso de um país "de democracia racial". Apesar do por anos disseram e ainda os fazem, nós temos mente, alma. Temos emoções. Somos seres dotados de sensibilidade e precisamos saber a hora de parar e nos cuidarmos, pois a nossa saúde mental importa, sim! 

Além de nós, negros na moda, reconhecermos esses fatos, essa discussão é também importante para se abrirem novos horizontes: precisamos deixar claro que nossa vida e nossa cultura, deve ser respeitada e valorizada não em roupas de estampas tribais, animal print, ou na disseminação do hip hop dentro do fashion business - isso deve ser representado com a inserção de negras e negros (e aqui dou a ênfase necessária as mulheres negras) nas mais diversas áreas que o mundo da moda proporciona; na representação do nosso povo para o nosso povo; e, principalmente, na entrada, aceitação e liberdade de expressão da nossa subjetividade no ambiente acadêmico. 



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