Em busca de um jeans, tamanho 46.

12:32

Talvez esse meu relato possa soar um tanto cômico, ou então talvez, quem sabe, possa parecer algo muito dramático, porém, o que irei tentar contar é apenas mais um das realidades problemáticos e doentias da sociedade em que vivemos. 

Em um belo dia, percebendo a necessidade de uma nova e simples calça jeans, saí em busca de uma. Não tenho o costume de gastar horrores em lojas de departamentos; na verdade, só entro nelas  quando é realmente  necessário - prefiro investir em bons achados e relíquias de Brechó escondidos, mas acredito que para a grande maioria de nós (e aqui me refiro à pessoas que não possuem o tipo físico considerado "padrão"), encontrar uma calça que vista o nosso corpo de forma bonita e confortável, é uma tarefa árdua. 


Juro que o meu foco era apenas uma calça básica, dessas pra bater perna e depois acabar andando sozinha de tanto que foi usada, mas como a vida adora fazer piadas de mau gosto, avistei um modelo totalmente diferente. Era uma calça jeans de lavagem clara; tinha patches e bordados lindos, e apesar de estar com um valor do qual não tenho o costume de pagar, minha mãe e eu discutimos - ela é a melhor companheira em compras, e ponto final - e decidimos que aquela calça valia a pena comprar. 
Procurei, inocentemente pelo o meu número e, também inocentemente, fui experimentar a calça que por sorte tinha, apenas um modelo, mas tinha. Eu já estava me sentindo sortuda por ter encontrado um modelo com meu número, pra início de conversa - um 44 lindinho. Contudo, se a felicidade de pobre dura pouco, a minha não durou minutos: a calça não serviu. 

Fiquei chateada? É claro! Mas eu e minha mãe estávamos muito empenhadas e não iríamos desistir facilmente. Àquela altura, eu já estava mudando o meu status do facebook para "relacionamento mega sério com uma calça mega linda". Juro que nunca havia me apaixonado por uma peça de roupa desta maneira. Além de muito bonita, a calça era de lavagem e material de muita qualidade. Ou seja, seria um bom investimento. Pois bem, eu e minha mãe resolvemos procurar por uma numeração maior, sendo assim, pensei que uma calça de tamanho 46 com toda a certeza serviria, já que a outra não me coube por muito pouco. 
Naquela loja, outro tamanho não tinha. Sem perder as esperanças, saímos eu e  em busca da mesma calça, em outra loja a mesma franquia.  Perguntamos pelo modelo da calça a uma atendente -  que aliás, foi muito simpática -, e esta nos disse, infelizmente, não poder me ajudar pois "a fabricação de calças da marca X, na "linha jovem", só iam das numerações 34 à 44".  Acredito que a minha decepção foi tão grande que a atendente pode vê-la em meu rosto - ela ficava se desculpando por algo que não tinha culpa alguma. 

No momento,não tive muitas reações. Aliás, o que havia para ser feito a respeito daquilo? Eu me contentei, e voltei para casa profundamente triste. Fiquei extremamente frustada - primeiramente, comigo mesma. Achei que a culpa de tudo era minha por não ter entrado na calça com a minha numeração correta.
 Depois, caindo na realidade, pensei em bolar um daqueles textos gigantes e mandar pra loja; postar no face; botar fogo em frente à loja,  e ficar nua, gritando coisas coisas incoerentes! Okay, exageros à parte. A grande questão é que, depois de um tempo meditando sobre a situação, pensei nas milhares e milhares de meninas e mulheres que naquele momento, estariam passando  pelo mesmo problema que eu. 

Pensei também nas garotas em fase adolescente, e no quão massacrante esse tipo de informação poderia ser para elas que, por não conseguirem se esclarecer a respeito dos verdadeiros culpados, passariam a odiar e negar cada vez mais o próprio corpo.
Somos obrigadas a lidar com o fato de que o nosso tipo físico não foi convidado a se sentar à mesa, junto com as populares. Somos obrigadas a engolir que "o problema somos nós"; que tem algo errado com o nosso corpo. Nos fazem sentir mal por sermos, simplesmente, quem somos. 

Mas é claro que vocês vão me dizer: "Ah Hadassa, mas já existem muitas marcas que investem em peças com números maiores; muitas lojas de departamentos que vendem roupas pluz-size". Sim, elas existem, e é aqui que reside todo o problema: o fato de precisar existir um tipo de loja "diferente" para que possamos encontrar roupas que sirvam em nossos corpos - o problema está no fato de que apesar da aparência de "diversidade", isso apenas  serve para nos dizer que não estamos dentro do correto; do "padrão". O problema está no fato de, em pleno 2017, ainda existir um "padrão", um ideal físico. Além de que, em sua maioria, essas peças para corpos vistos como "diferentes", são feitas unicamente para "servir", e não embelezar. Várias lojas "renomadas" só vendem roupas de números e tamanhos maiores pela Internet, como se fosse vergonhoso ter essas peças carregando o nome de uma marca importante; como se fosse errado ir à uma loja e ser possível escolher uma peça que agrade e sirva a vários corpos . E nem vou me alongar no fato de ser totalmente errôneo nomear a coleção de "linha jovem", como se apenas pessoas até certa idade pudessem usar essa ou aquela peça de roupa. Tudo isso não é certo! Temos que parar de normalizar absurdos como este! Odiar o próprio corpo, nos obrigando a nos moldar para "caber" dentro de determinado padrão de beleza, apenas para que nossa sociedade capitalista continue a funcionar, não pode ser aceitável! 

Depois de pensar muito em tudo isso, cheguei a conclusão de que, no momento, o ato mais revolucionário que podemos fazer é nos aceitar e aprendermos a nos amar, da maneira linda e única que somos.  Eu sei, parece clichê. E eu sei, é doloroso demais, mas com certeza  recompensador. 
O meu primeiro passo é estar aqui, falando abertamente que uso 44 e sim, às vezes preciso de um 46 - admitir isso, não tem nada de errado, ao contrário do que nos querem fazer acreditar. É só um número, e não um indicador de beleza. É só um número - repita isso para você, todos os dias.
Cada pedacinho de mim foi formado de uma maneira maravilhosa. A beleza que existe em mim, não se vende em qualquer loja e todos nós somos maravilhosos e únicos a nossa maneira.

Sim, ainda penso naquele jeans, não vou mentir. Contudo, certas situações,  mesmo que revoltantes e dolorosas, nos ajudam a ir descobrindo, pouco a pouco, quem somos.
Este foi apenas um relato de uma "manequim 44", que sonha com uma sociedade em que todos os corpos sejam valorizados devidamente. Eu sei, é um belo sonho, mas ninguém pode me provar ser impossível.

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