Genuínas reflexões sobre não agir sempre genuinamente. E estar ok com isso.

15:20


Por Erika Gomes, 

Eu estava falando comigo mesma agora há pouco, refletindo sobre a vida enquanto não a encontrava, de fato, ao olhar no fundo do olhos no meu reflexo no espelho. Os tempos não têm sido fáceis. Nunca foram, é verdade. Porém, tudo está absolutamente mais difícil. Sei que as coisas não estão assim só para mim, mas talvez seja bom ser egoísta, de tempos em tempos, e me importar só com a minha dor. Sei disso agora. Isso não quer dizer deslegitimar o sofrimento do outro - qualquer outro negro; pobre; negro e pobre; mulher; mulher negra e pobre, no Brasil. A dor é real, já que a opressão, a corrupção, o racismo e capitalismo também o são. E me importar, em certas ocasiões, só com a minha dor não é também, torna-la maior e por isso, "mais dolorosa". Sofrimento não deve ser hierárquico, e muito menos uma competição. Mas eu refleti sobre um aspecto da minha vida: eu sempre estou querendo carregar toda a dor dos injustiçados no mundo. Eu já havia discutido isso com a minha terapeuta, mas não tinha parado para pensar profundamente sobre isso. Não tinha pensando, verdadeiramente, nessa verdade.
 
Eu tenho o hábito de acumular; querer cuidar e carregar todo o sofrimento que me é permitido. Estou constantemente pensando primeiramente na dor dos outros, principalmente daqueles que eu amo, e no quanto minhas ações e até mesmo expressão das minhas emoções, podem afetar os outros. Não sou abnegada e nem cem por cento altruísta. Estou longe - infinitos quilômetros longe, de ser uma espécie de santa. Aliás, não é isso o que eu aspiro, de maneira nenhuma, muito obrigada. Mas esse é um fato inegável sobre mim que, honestamente, só fui reparar depois que entrei na universidade. 


Sou preta e pobre. É claro que, desde os meus primeiros dias na Universidade Federal do Paraná, percebi que a maioria das mulheres que lá fazem a limpeza, são negras. E ao decorrer do curso, percebi também, que todos os pseudointelectuais que perambulam os corredores do prédio histórico, arrotando Marx e organizando eventos, cheios de cartazes com frases inteligentes para a próxima manifestação, passam todos os dias por essas mesmas mulheres negras, da classe trabalhadora terceirizada que eles visam defender, sem as cumprimentar. Sem nem, ao menos, olha-las nos olhos. Sou uma pessoa quieta, meio introspectiva quando não estou com amigos ou em casa - sou observadora. Vejo tudo isso e me incomodo grandemente com a hipocrisia do ser humano. 


Desde o primeiro dia de aula, eu cumprimentava essas mulheres, por educação e humanidade. Contudo, depois de notar tudo isso, percebi, agora, que ao invés de ser alguém que genuinamente as cumprimenta, passei a ser uma pessoa que se esforça para parecer genuína, enquanto deseja um "bom dia!". Entretanto, essa não sou eu. Não as cumprimento genuinamente. Não posso ser genuína nesse quesito, nunca mais, porque é quase impossível "desver" alguma coisa. Deixar de notar o que venho observado; jogar fora, no abismo, todas as informações que absorvi a partir dessas observações. 


Eis a questão: eu passei, também, a carregar a dor dessas mulheres - dor esta que talvez, conscientemente, elas não julgam possuir. Não. Não é isso. Acho que não estou sendo precisa. Não passei a carregar a dor especificamente dessas fortes mulheres; mas sim, do que elas representam, para o povo negro, e no que essa representação me afeta. Acontece que, por consequência de circunstâncias, eu estou ali, na Universidade, mas não como estatística. Sou estudante, de Psicologia - curso elitista e majoritariamente branco. O que me separa da vida daquelas mulheres; o que apesar de negra, me torna aos olhos da sociedade (visível na reprodução no comportamento dos meus colegas universitários), digna de ser cumprimentada, são unicamente as oportunidades. Oportunidades - cruelmente separadoras de águas. 


É essa realidade que me dói, profundamente. E é este peso que carrego; é esta consciência que impregna, se entrelaça nos meus "bom dia!", do dia a dia. É por este motivo que não posso cumprimentar aquelas mulheres, simples e genuinamente, por cumprimentar. Há um significado por detrás dessas palavras - eu quero dizer que estou ali, por elas. E que sou grata à elas. E que reconheço suas jornadas até ali, apesar de todos os infindos pesares. 


Sei que é excepcionalmente maravilhoso poder sentir o que sinto e reconhecer tudo isso. Contudo, às vezes é simplesmente cansativo, carregar essa consciência - o sentimento de ser responsável por tudo, ou de consertar tudo. É primeiramente impossível realizar tal coisa. Em segundo lugar, ao me importar com quase toda a dor do mundo, eu passo a não enxergar a minha como legitima. E então a diminuo. E a empurro para de baixo do tapete, para junto de toda as outras velhas bagunças e sujeiras dolorosas que não considerei dignas de serem sentidas. Cheguei a conclusão, de que faço comigo mesma, a mesma coisa que os pseudointelectuais do prédio histórico fazem com as mulheres negras que lá fazem a limpeza. Digo que me enxergo; falo que luto por mim mesma, pelo tão aclamado "empoderamento", quando, no dia a dia, passo reto pelas minhas emoções, já que não as considero. 


Como inicialmente disse, não deve existir uma disputa de sofrimento. Minhas dores não são maiores do que outras, e exatamente por isso, não são menos dignas de atenção. 


É mais fácil cuidar do outro do que de si mesmo. 
Resistir; estar tentando ascender, sendo preta e pobre, visando futuramente fazer uma mudança, mesmo que mínima mas positiva para o povo negro, é também reconhecer que minha sensibilidade importa. 

É tão clichê, bem como uma verdade inegável, as variações de frases e poemas sobre não ser possível fazer qualquer mudança, se ela não acontecer primeiramente em nós mesmos. Não vou sair do lugar se continuar ignorando isso. Não posso continuar me ignorando. E nem vou. 

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