A Casa na qual Habito.

20:26



Entre uma pausa e outra, quando a vida nos permite um detalhado momento de reflexão, consigo vislumbrar, como se em um quadro, uma longa e árdua trajetória. 
Não sei ao certo qual a minha intrínseca relação com mudanças, só sei que escrevo muito sobre elas e tenho passado por elas mais vezes do que gostaria - e quem sabe, algum dia, tudo isso faça um belo sentido. 
Sempre tive um grande talento em fugir de situações que me colocavam em confronto comigo mesma. Desse modo, aprendi a evitar e mascarar as mudanças internas e externas que vez ou outra me encontravam. Permiti por muitos anos, fincar raízes em verdades que não eram minhas; em padrões dos quais eu nunca me encaixei, em mentiras ditas sutilmente, ou naquelas que eu contava para o meu reflexo no espelho, até que cheguei a um estado no qual não consegui me ver refletida nele. 

Chega um momento em que esses acúmulos de sentimentos e marcas de sua jornada não conseguem mais se aquietar - é quase como se todo o seu corpo entrasse em um processo químico, onde todas as substâncias se debatem em conflito, fervilhando toda a sua essência. Quem você achava que era, não te condiz mais, pois apesar dos anos de aprisionamento e silêncio, só conseguimos nos sentir cada vez mais fortes. 
Com o passar dos dias, descobri que não era mais um ser vagante, vivendo de favores em casas alheias. Encontrei um lar e ele estava mais perto do que imaginava: me tornei o meu próprio lar. 


Não posso dizer que tem sido fácil cuidar de um espaço tão grande. Tem vezes em que as bagunçam se acumulam e dá vontade de esconder a sujeira embaixo do tapete. Contudo, há também a beleza em meio ao caos, já que ele nos tira da nossa zona de conforto e nos faz perceber o quanto a desordem é necessária para que haja uma mudança. 
Hoje permito-me cultivar plantas e colocar quadros nas paredes, pois decorar um lar, é um sinal de que queremos criar vínculos, colecionar memórias e momentos; e de que não preciso ter tanta pressa assim em mudar, pois o local me deixa confortável e aconchegada, não de uma forma acomodada, mas sim de um maneira curiosa e um pouco incômoda, pois sei que ainda tenho muito o que arrumar, apesar dos avanços que já posso ver nesse lar, e que já me fazem me  sentir bem vinda, como se toda essa jornada tivesse o objetivo de me levar até onde estou, nesse exato momento. 

Não é fácil protagonizar sua própria história, quando desde muito cedo, aprendemos que o espetáculo do vizinho vale mais a pena de se ver. Tenho aprendido que por mais difícil que seja, é recompensador abraçar minhas inconstâncias, me decorar e morar em mim. 

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